POP: hiperglicemia no adulto internado não crítico
Insulinas disponíveis: NPH e Lispro. Meta habitual: 100 a 180 mg/dL.
1. Objetivo
Padronizar o manejo da hiperglicemia no paciente adulto internado nao critico, utilizando as insulinas disponiveis no servico:
NPH e Lispro
Principios:
- priorizar seguranca e operacionalidade;
- utilizar NPH como principal insulina programada;
- utilizar Lispro de forma conservadora para correcao;
- evitar esquemas excessivamente complexos durante a internacao;
- ajustar a insulinoterapia conforme o perfil glicemico observado.
Meta glicemica habitual:
100 a 180 mg/dL
2. CORRECAO INICIAL
Para pacientes sem insulinoterapia previa:
Se glicemia >250 mg/dL:
Lispro 4 UI SC
Registrar as doses de resgate utilizadas.
A dose fixa de 4 UI constitui uma estrategia deliberadamente conservadora e operacional para o ambiente hospitalar.
Manter a correcao disponivel mesmo apos introducao da NPH.
3. AVALIACAO E INTRODUCAO DA NPH
Reavaliar diariamente a necessidade de insulinoterapia programada.
Considerar introducao de NPH diante de:
- hiperglicemia persistente;
- glicemias repetidamente >=180 mg/dL;
- necessidade recorrente de Lispro de resgate;
- 2 ou mais resgates em 24 horas.
Nos pacientes estaveis, a quantidade de Lispro utilizada nos primeiros dias pode ser utilizada como uma das referencias para estimar a necessidade de insulina programada.
A NPH passa a constituir a principal ferramenta para controle glicemico programado.
Dividir a dose diaria em 2 ou 3 administracoes, conforme o perfil glicemico.
Manter:
Lispro 4 UI SC se glicemia >250 mg/dL
4. AJUSTE DA NPH
Reavaliar a dose a cada 24 a 48 horas.
Considerar ajuste quando houver:
>=2 resgates de Lispro em 24 horas
ou
hiperglicemia persistentemente acima da meta
Os resgates representam um marcador de que a insulinoterapia programada pode estar insuficiente.
Como regra geral:
aumentar a dose diaria de NPH em aproximadamente 10 a 20%
Nao incorporar automaticamente 100% das unidades de resgate a NPH.
A quantidade de Lispro utilizada serve como informacao adicional para estimar a magnitude do ajuste.
5. QUAL DOSE DE NPH AJUSTAR
O ajuste deve considerar o periodo no qual ocorre a hiperglicemia.
O objetivo e aumentar preferencialmente a dose de NPH cuja curva de acao tenha maior influencia sobre aquele periodo.
Hiperglicemia predominante pela manha, em jejum
Reavaliar prioritariamente:
NPH noturna
Se necessario, aumentar a NPH noturna.
Antes de aumentar, verificar se houve hipoglicemia durante a madrugada.
Hiperglicemia predominante antes do almoco
Reavaliar prioritariamente:
NPH da manha
Se necessario, aumentar a NPH matinal.
Hiperglicemia predominante antes do jantar
Reavaliar:
NPH da manha e/ou NPH da tarde
A escolha depende dos horarios de administracao utilizados no setor e do perfil glicemico observado.
Hiperglicemia predominante ao deitar
Reavaliar prioritariamente:
NPH da tarde
ou, conforme o horario utilizado no esquema:
componente vespertino da NPH
Hiperglicemia durante todo o dia
Nao direcionar o ajuste para uma unica dose.
Considerar aumento da:
DTD de NPH em 10 a 20%
e redistribuir conforme o esquema utilizado.
6. REDUCAO DA NPH
A necessidade insulinica pode diminuir rapidamente durante a internacao.
Reavaliar reducao da NPH diante de:
- glicemias proximas do limite inferior da meta;
- glicemia <100 mg/dL de forma recorrente;
- qualquer hipoglicemia <70 mg/dL;
- reducao importante da ingestao alimentar;
- inicio de jejum;
- piora da funcao renal;
- suspensao ou reducao de corticoide;
- resolucao de infeccao ou outro fator de resistencia insulinica.
Como regra pratica:
reduzir a dose relacionada ao periodo glicemico em aproximadamente 10 a 20%
A ocorrencia de hipoglicemia exige avaliacao individual e pode justificar reducao maior.
7. PACIENTE EM JEJUM
A NPH representa insulina basal e nao deve ser automaticamente suspensa apenas porque o paciente entrou em jejum.
Entretanto, o jejum reduz a necessidade insulinica e aumenta o risco de hipoglicemia.
Jejum programado
Se o paciente estiver em uso de NPH e houver previsao de jejum:
reduzir a dose de NPH correspondente ao periodo do jejum.
Como regra operacional inicial:
administrar aproximadamente 50 a 80% da dose habitual de NPH, conforme controle glicemico, duracao prevista do jejum e risco de hipoglicemia.
Quanto maior o risco de hipoglicemia, mais conservadora deve ser a dose.
Manter monitorizacao glicemica durante o periodo.
Nao administrar Lispro prandial se nao houver refeicao.
A Lispro de correcao permanece disponivel:
4 UI SC se glicemia >250 mg/dL
Jejum inesperado
Se o paciente ja recebeu NPH e posteriormente entrou em jejum:
- nao administrar Lispro prandial;
- manter vigilancia glicemica;
- aumentar atencao para hipoglicemia;
- considerar necessidade de aporte de glicose conforme evolucao clinica.
8. PACIENTE COM DM1 OU DEPENDENCIA ABSOLUTA DE INSULINA
Pacientes com:
- DM1;
- LADA insulinodependente;
- pancreatectomia;
- outras formas de deficiencia absoluta de insulina;
NAO devem ser conduzidos apenas com Lispro de resgate.
Esses pacientes necessitam obrigatoriamente de insulina basal.
Nunca suspender completamente a insulina basal em DM1, inclusive durante jejum.
A dose pode necessitar de reducao conforme alimentacao, funcao renal, glicemias e risco de hipoglicemia, mas a cobertura basal deve ser mantida.
O esquema deve ser individualizado.
9. PACIENTE QUE JA UTILIZAVA INSULINA
Identificar:
- esquema domiciliar;
- DTD domiciliar;
- componente basal;
- componente prandial;
- HbA1c;
- funcao renal;
- alimentacao atual;
- hipoglicemias previas.
Adaptar o esquema para NPH e Lispro conforme necessario.
Nao utilizar 80% da dose domiciliar como regra absoluta.
A reducao da dose domiciliar e particularmente pertinente diante de:
- baixa ingestao;
- jejum;
- piora da funcao renal;
- hipoglicemia;
- mudanca importante da dieta.
Manter insulinoterapia basal obrigatoriamente no DM1.
10. CORRECAO INDIVIDUALIZADA PELO FS
Em pacientes previamente insulinizados e com DTD conhecida, pode-se substituir a correcao fixa de 4 UI por uma correcao individualizada.
Como a insulina disponivel para correcao e Lispro:
FS = 1800 / DTD
Dose de correcao:
Lispro = (glicemia atual - glicemia alvo) / FS
Utilizar como referencia:
glicemia-alvo = 150 mg/dL
Exemplo:
DTD = 60 UI
FS = 1800 / 60 = 30 mg/dL/UI
Glicemia = 270 mg/dL
(270 - 150) / 30 = 4 UI
Lispro 4 UI SC
Arredondar de forma conservadora.
11. USO DE CORTICOIDE
O uso de glicocorticoides pode aumentar significativamente a necessidade insulinica.
O perfil da hiperglicemia depende do corticoide, dose e horario.
Prednisona ou prednisolona pela manha
O perfil costuma apresentar aumento da glicemia principalmente durante a tarde e inicio da noite.
Nesse contexto, a NPH matinal apresenta perfil farmacologico particularmente util.
Considerar:
NPH matinal
Uma referencia inicial possivel:
NPH 0,1 UI/kg/dia
com posterior titulacao conforme o perfil glicemico.
Se o paciente ja utiliza NPH, considerar aumentar preferencialmente o componente matinal diante de hiperglicemia vespertina associada ao corticoide.
Reducao ou suspensao do corticoide
Sempre reavaliar a dose de NPH quando houver reducao ou suspensao do corticoide.
A necessidade insulinica pode diminuir rapidamente.
Antecipar reducao da NPH conforme o perfil glicemico para reduzir o risco de hipoglicemia.
12. HIPOGLICEMIA
Glicemia <70 mg/dL
Administrar:
Glicose 50% 40 mL IV
Reavaliar glicemia em:
15 minutos
Se a hipoglicemia persistir:
repetir o tratamento e nova avaliacao em 15 minutos.
Apos correcao da hipoglicemia:
- identificar a causa;
- avaliar relacao temporal com a NPH;
- reavaliar a dose responsavel;
- considerar reducao da NPH subsequente.
Hipoglicemia recorrente exige revisao do esquema insulinico.
13. GATILHOS PARA AVALIACAO MEDICA
A execucao automatica do protocolo deve ser interrompida e o paciente reavaliado diante de:
- hipoglicemia grave;
- hipoglicemias recorrentes;
- alteracao do nivel de consciencia associada a alteracao glicemica;
- hiperglicemia importante e persistente apesar da insulinoterapia prescrita;
- vomitos persistentes associados a hiperglicemia;
- suspeita clinica de cetoacidose diabetica;
- suspeita de estado hiperglicemico hiperosmolar;
- necessidade repetida de resgates apesar dos ajustes de NPH.
Nessas situacoes, a conduta deve ser individualizada e o paciente pode deixar de ser candidato a este POP simplificado.
14. ALTA HOSPITALAR
Antes da alta, definir o esquema a partir de:
- HbA1c;
- tratamento previo;
- DTD utilizada nos ultimos dias;
- perfil glicemico;
- resolucao ou persistencia da doenca aguda;
- funcao renal;
- dieta domiciliar;
- uso de corticoide;
- risco de hipoglicemia;
- capacidade do paciente de administrar insulina.
Se houver indicacao de insulinoterapia basal-bolus:
DTD de alta
Dividir inicialmente:
50% NPH
50% Lispro
NPH
Dividir em 2 ou 3 doses conforme o perfil glicemico observado.
Lispro
Dividir entre:
cafe da manha + almoco + jantar
A Lispro prandial deve estar vinculada a ingestao da refeicao.
Orientar o paciente quanto a:
- tecnica de aplicacao;
- horarios;
- monitorizacao glicemica;
- reconhecimento da hipoglicemia;
- tratamento da hipoglicemia;
- relacao entre Lispro e refeicao;
- conduta diante de baixa ingestao;
- armazenamento da insulina.
Providenciar:
- receita das insulinas;
- agulhas/seringas ou dispositivos necessarios;
- glicosimetro e insumos quando indicados;
- plano escrito de doses;
- seguimento ambulatorial.
Se houver alteracao importante do esquema durante a internacao ou controle ainda instavel:
preferir reavaliacao precoce, idealmente em 1 a 2 semanas.
FLUXO OPERACIONAL RESUMIDO
PACIENTE INTERNADO
Glicemia >250 mg/dL
-> Lispro 4 UI SC
-> registrar resgate
-> acompanhar perfil glicemico
>=2 resgates/dia ou hiperglicemia persistente?
NAO
-> manter estrategia
SIM
-> iniciar ou aumentar NPH
-> manter Lispro 4 UI se >250
Ajuste da NPH
Jejum alto
-> revisar NPH noturna
Pre-almoco alto
-> revisar NPH matinal
Pre-jantar alto
-> revisar NPH matinal/tarde
Ao deitar alto
-> revisar NPH vespertina
Todo o dia alto
-> aumentar DTD de NPH 10-20%
Glicemias baixando
-> revisar necessidade de NPH
Glicemia <70 mg/dL
-> Glicose 50% 40 mL IV
-> reavaliar em 15 minutos
-> revisar insulinoterapia
Jejum
-> manter NPH em dose reduzida
-> em geral 50-80% da dose correspondente
-> sem Lispro prandial
DM1
-> NUNCA ficar sem insulina basal
Corticoide matinal
-> considerar/reforcar NPH matinal
Alta
-> definir DTD individualizada
-> se basal-bolus:
50% NPH + 50% Lispro
-> educacao + insumos + seguimento